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Relação de Euler

A contagem que revela a estrutura dos poliedros

Entenda quando V − A + F = 2 vale, prove a fórmula e combine-a com incidências para resolver problemas avançados.

Vértices, arestas e faces

Em um poliedro, indicamos por V o número de vértices, por A o número de arestas e por F o número de faces. Nesta aula, A significa arestas, e não área.

V − A + F = 2

Essa é a relação de Euler para poliedros convexos. As contagens são números inteiros e, nesse contexto, satisfazem V ≥ 4, A ≥ 6 e F ≥ 4. O tetraedro atinge os três mínimos.

Característica de Euler. A expressão χ = V − A + F é chamada característica de Euler. Para a superfície de um poliedro convexo, χ = 2.

Quando a fórmula vale?

A forma V − A + F = 2 vale para a superfície fechada e conexa de um poliedro convexo: não há furos, cada aresta pertence a exatamente duas faces e é possível percorrer toda a superfície sem saltar para outra componente.

A convexidade é uma condição suficiente, mas não necessária. Um poliedro não convexo cuja superfície possa ser deformada continuamente em uma esfera, sem rasgar nem colar, também tem χ = 2.

Superfície aberta

Retirar uma face do cubo mantém V = 8 e A = 12, mas deixa F = 5. Assim, χ = 8 − 12 + 5 = 1.

Duas componentes

Dois tetraedros separados somam V = 8, A = 12 e F = 8. Logo, χ = 4, duas vezes o valor de cada componente.

Um furo

Uma superfície fechada com forma de toro tem χ = 0. Em geral, para uma superfície orientável, fechada e conexa com g furos, χ = 2 − 2g.

Três situações topológicas e suas características de Euler Comparação entre um cubo aberto com característica um, dois tetraedros desconectados com característica quatro e um toro com característica zero. abertoχ = 1 desconexoχ = 4 um furoχ = 0
Alterar abertura, número de componentes ou quantidade de furos pode alterar χ. Os desenhos são esquemáticos.

Uma demonstração por grafo planar

Escolha uma face do poliedro convexo e projete as demais sobre um plano, como em um diagrama de Schlegel. A face escolhida torna-se a região externa. O resultado é um grafo planar conexo com os mesmos V e A e com F regiões, contando a externa.

  1. Enquanto houver um ciclo, retire uma aresta desse ciclo. O grafo continua conexo.
  2. Cada aresta retirada une duas regiões; portanto A e F diminuem em 1. A quantidade V − A + F não muda.
  3. Quando não restam ciclos, obtemos uma árvore conexa. Toda árvore com V vértices tem A = V − 1 e o plano fica com uma única região, F = 1.
  4. Na árvore, V − A + F = V − (V − 1) + 1 = 2. Como as retiradas preservaram a expressão, o grafo inicial e o poliedro também satisfazem Euler.
Redução de um grafo planar a uma árvore Um grafo planar com ciclos perde uma aresta de ciclo por vez, reduzindo simultaneamente arestas e regiões, até tornar-se uma árvore com uma única região. grafo planarretire uma aresta de ciclo menos um cicloΔA = ΔF = −1 árvoreA = V − 1 e F = 1
A retirada é feita somente em arestas pertencentes a ciclos. Assim, a conexidade é preservada e A e F variam juntos.

Verificações em famílias conhecidas

Tetraedro

V = 4, A = 6 e F = 4: 4 − 6 + 4 = 2.

Cubo

V = 8, A = 12 e F = 6: 8 − 12 + 6 = 2.

Prisma n-gonal

V = 2n, A = 3n e F = n + 2: 2n − 3n + n + 2 = 2.

Pirâmide n-gonal

V = n + 1, A = 2n e F = n + 1: n + 1 − 2n + n + 1 = 2.

Verificação da relação de Euler no cubo Cubo com oito vértices, doze arestas, sendo nove visíveis e três ocultas tracejadas, e seis faces. V = 8A = 12F = 68 − 12 + 6 = 2tracejado: aresta oculta
O cubo confirma a fórmula, mas uma coleção de verificações não substitui a demonstração geral.

Como isolar a variável desconhecida

Partindo de V − A + F = 2, mantenha os sinais sob controle:

IncógnitaForma isoladaLeitura
VV = 2 + A − FSome 2 e A; subtraia F.
AA = V + F − 2A soma V + F perde 2.
FF = 2 − V + ASome 2 e A; subtraia V.

Dupla contagem pelas faces

Se fk é o número de faces com k lados, a soma dos lados de todas as faces conta cada aresta duas vezes, uma em cada face incidente. Portanto:

Σk≥3 kfk = 2A

Se todas as faces são p-gonais, então pF = 2A. O fator 2 é indispensável: uma aresta fechada da superfície separa duas faces.

Exemplo. Com 6 faces triangulares e 5 quadrangulares, 2A = 3·6 + 4·5 = 38; logo, A = 19. Como F = 11, Euler fornece V = 10.

Dupla contagem pelos vértices

O grau de um vértice é a quantidade de arestas que chegam a ele. Se vj é o número de vértices de grau j, cada aresta contribui com dois extremos:

Σj≥3 jvj = 2A

Se todos os vértices têm o mesmo grau q, então qV = 2A. Essa é a versão do lema do aperto de mãos aplicada ao esqueleto do poliedro.

Exemplo. Se há 10 vértices, todos de grau 4, então 4·10 = 2A e A = 20. Por Euler, F = 2 − 10 + 20 = 12.

Consequências de paridade

Como 2A é par, as somas de incidências são pares. Termos de índice par não alteram a paridade; por isso:

  • a quantidade total de faces com número ímpar de lados é par;
  • a quantidade total de vértices de grau ímpar é par.

Assim, não pode existir um poliedro fechado com exatamente 5 faces triangulares e 2 quadrangulares: a quantidade de faces de lados ímpares seria 5, que é ímpar.

Desigualdades fundamentais

Cada face tem pelo menos três lados e cada vértice tem grau pelo menos três. Logo:

3F ≤ 2A    e    3V ≤ 2A

Há igualdade na primeira exatamente quando todas as faces são triangulares; há igualdade na segunda exatamente quando todos os vértices têm grau 3.

Usando F = 2 − V + A em 3F ≤ 2A:

3(2 − V + A) ≤ 2A ⇒ A ≤ 3V − 6

De modo dual, usando V = 2 + A − F em 3V ≤ 2A:

3(2 + A − F) ≤ 2A ⇒ A ≤ 3F − 6

Essas condições são necessárias, não suficientes: satisfazê-las não constrói automaticamente um poliedro.

Três famílias especiais

HipóteseIncidênciaConsequências com Euler
Todas as faces triangulares3F = 2AA = 3V − 6 e F = 2V − 4
Todas as faces quadrangulares4F = 2AV = F + 2, F = V − 2 e A = 2V − 4
Todos os vértices de grau 33V = 2AA = 3F − 6 e V = 2F − 4

Observe a dualidade: trocar vértices por faces transforma a família triangular na família trivalente.

Faces mistas: relações surpreendentes

Triângulos e quadriláteros, com grau 3

Se há t faces triangulares e q quadrangulares e todo vértice tem grau 3, então F = t + q, 2A = 3t + 4q e 3V = 2A. Substituindo em Euler:

3t + 2q = 12

Se F = 5, também temos t + q = 5. O sistema dá t = 2 e q = 3. Essas contagens são compatíveis com o prisma triangular; as equações, isoladamente, não demonstram unicidade geométrica.

Pentágonos e hexágonos, com grau 3

Se há p pentágonos e h hexágonos, 2A = 5p + 6h e 3V = 2A. Com F = p + h, Euler produz:

p = 12

O número de hexágonos pode variar, mas qualquer poliedro desse tipo precisa ter exatamente 12 faces pentagonais. É o princípio combinatório por trás de fulerenos e da bola de futebol clássica.

Poliedros regulares e os cinco casos possíveis

Suponha que todas as faces sejam p-gonais e que q faces se encontrem em cada vértice. Das incidências, pF = 2A e qV = 2A. Substituindo em Euler e definindo Δ = 2p + 2q − pq:

A = 2pqΔ,   V = 4pΔ,   F = 4qΔ

Para V, A e F serem positivos, Δ > 0, o que equivale a:

1p + 1q > 12

Como p, q ≥ 3, sobram apenas cinco pares.

{p, q}PoliedroVAF
{3, 3}Tetraedro464
{4, 3}Cubo8126
{3, 4}Octaedro6128
{5, 3}Dodecaedro203012
{3, 5}Icosaedro123020

Cubo: p = 4, q = 3

Δ = 8 + 6 − 12 = 2. Assim, A = 12, V = 8 e F = 6.

Icosaedro: p = 3, q = 5

Δ = 6 + 10 − 15 = 1. Assim, A = 30, V = 12 e F = 20.

Compatibilidade não é existência

A relação de Euler funciona como um teste necessário, mas não descreve sozinha como faces e arestas se encaixam.

  • V = 7, A = 12, F = 7: satisfaz 7 − 12 + 7 = 2; a lista é numericamente compatível, mas Euler, sozinha, não prova existência nem determina os tipos de face.
  • V = 8, A = 12, F = 7: produz 8 − 12 + 7 = 3; portanto é incompatível com uma superfície poliédrica fechada do tipo esférico.

Depois de Euler, ainda podem ser necessários testes de paridade, graus, incidências e uma construção combinatória ou geométrica.

Estratégia de resolução

  1. Confirme o escopo: superfície fechada, conexa e sem furos; em provas escolares, procure a hipótese de convexidade.
  2. Defina V, A e F e conte todas as faces, inclusive bases.
  3. Traduza faces: Σkfk = 2A.
  4. Traduza graus: Σjvj = 2A.
  5. Aplique V − A + F = 2.
  6. Verifique integralidade, positividade, paridade e desigualdades.
  7. Interprete com cuidado: compatibilidade numérica não equivale a existência ou unicidade.

Erros que derrubam pontos

  • Confundir A de arestas com área.
  • Contar somente faces laterais e esquecer as bases.
  • Escrever Σkfk = A ou Σjvj = A, esquecendo que cada aresta é contada duas vezes.
  • Aplicar χ = 2 a um sólido aberto, desconexo ou com furos.
  • Trocar sinais ao isolar A: o correto é A = V + F − 2.
  • Concluir existência, formato ou unicidade apenas porque V − A + F = 2.
  • Arredondar uma contagem fracionária; se V, A ou F não é inteiro, as hipóteses são incompatíveis.

Exemplos resolvidos passo a passo

1. Descoberta de F

Um poliedro convexo tem V = 12 e A = 18. Determine F.

12 − 18 + F = 2.

F = 8.

Verificação: 12 − 18 + 8 = 2.

2. Doze triângulos

As 12 faces de um poliedro convexo são triangulares. Determine A e V.

3F = 2A: 36 = 2A, então A = 18.

V − 18 + 12 = 2.

V = 8.

3. Faces mistas

Há 6 faces triangulares e 5 quadrangulares. Determine V e A.

F = 6 + 5 = 11.

2A = 3·6 + 4·5 = 38; A = 19.

V = 2 + 19 − 11 = 10.

4. Grau constante 4

Um poliedro convexo tem 10 vértices, todos de grau 4. Calcule A e F.

4V = 2A: 40 = 2A; A = 20.

F = 2 − V + A.

F = 2 − 10 + 20 = 12.

5. Estrutura trivalente

Todos os vértices têm grau 3 e F = 7. Determine V e A.

Da família trivalente, V = 2F − 4 = 10.

A = 3F − 6 = 15.

Confere: 10 − 15 + 7 = 2.

6. Oito quadriláteros

Todas as 8 faces de um poliedro convexo são quadrangulares. Determine V e A.

4F = 2A; portanto A = 16.

V = F + 2.

Logo, V = 10.

7. Triângulos e quadriláteros

Há 5 faces, apenas triangulares e quadrangulares, e todos os vértices têm grau 3.

Sejam t e q: t + q = 5.

Euler e as incidências dão 3t + 2q = 12.

Subtraindo 2(t + q) = 10: t = 2 e q = 3.

8. Pentágonos e hexágonos

Um poliedro trivalente tem 20 hexágonos e apenas faces pentagonais ou hexagonais. Quantos pentágonos possui?

Para essa família, Euler reduz as equações a p = 12.

Logo, há 12 pentágonos, independentemente de h = 20.

Então F = 32, A = 90 e V = 60.

9. Icosaedro pelas fórmulas

Faces triangulares e cinco faces em cada vértice: p = 3 e q = 5.

Δ = 2·3 + 2·5 − 3·5 = 1.

A = 2pq/Δ = 30.

V = 4p/Δ = 12 e F = 4q/Δ = 20.

10. Teste de impossibilidade

Pode uma superfície poliédrica fechada do tipo esférico ter V = 8, A = 12 e F = 7?

Calcule χ = 8 − 12 + 7.

Obtemos χ = 3, e não 2.

Portanto, as contagens são incompatíveis com as hipóteses.

Exercícios

Fácil

1. Um poliedro convexo tem V = 12 e A = 18. O valor de F é:

A) 6B) 8C) 10D) 12
Fácil

2. Ao retirar uma face do cubo, sem alterar suas arestas e vértices, a característica de Euler passa a valer:

A) 0B) 2C) 1D) 4
Fácil

3. Um poliedro convexo com 12 faces triangulares tem, respectivamente, A e V iguais a:

A) 18 e 8B) 12 e 6C) 18 e 12D) 36 e 8
Fácil

4. Se há 10 vértices, todos de grau 4, então A e F valem:

A) 10 e 4B) 20 e 10C) 40 e 32D) 20 e 12
Médio

5. Com 6 faces triangulares e 5 quadrangulares, os valores de A e V são:

A) 17 e 8B) 19 e 10C) 19 e 12D) 38 e 10
Médio

6. Se todas as faces são triangulares e V = 10, então A e F são:

A) 18 e 10B) 20 e 12C) 24 e 16D) 30 e 22
Médio

7. Se todas as 8 faces são quadrangulares, então A e V são:

A) 16 e 10B) 12 e 6C) 16 e 8D) 32 e 26
Médio

8. Um poliedro convexo trivalente tem F = 7. Então A e V valem:

A) 12 e 7B) 14 e 9C) 15 e 8D) 15 e 10
Médio

9. Uma superfície poliédrica fechada tem exatamente 5 faces triangulares e 2 quadrangulares. Isso é:

A) sempre possívelB) impossível, pois há quantidade ímpar de faces de lados ímparesC) possível apenas se V = 7D) impossível apenas quando é convexa
Difícil

10. Um poliedro convexo trivalente possui apenas pentágonos e hexágonos. A quantidade de pentágonos é necessariamente:

A) 6B) 10C) 12D) depende da quantidade de hexágonos
Difícil

11. Em um poliedro regular, p = 3 e q = 5. A sequência (V, A, F) é:

A) (20, 30, 12)B) (6, 12, 8)C) (8, 12, 6)D) (12, 30, 20)
Difícil

12. Sobre a lista V = 7, A = 12 e F = 7, a conclusão rigorosa é:

A) é compatível com Euler, mas isso não prova existênciaB) determina um único poliedroC) é incompatível com EulerD) obriga todas as faces a serem triangulares
Difícil

13. Um poliedro convexo tem grau 3 em todos os vértices e 5 faces, apenas triangulares ou quadrangulares. As quantidades (t, q) são:

A) (1, 4)B) (3, 2)C) (2, 3)D) (4, 1)
Difícil

14. Uma superfície orientável, fechada e conexa com um furo tem característica de Euler:

A) 2B) 0C) 1D) −2

Gabarito comentado:

1-B: F = 2 − 12 + 18 = 8.

2-C: V = 8, A = 12 e F = 5 dão χ = 1.

3-A: 3·12 = 2A dá A = 18; Euler dá V = 8.

4-D: 4·10 = 2A dá A = 20; Euler dá F = 12.

5-B: 2A = 3·6 + 4·5 = 38, então A = 19; com F = 11, V = 10.

6-C: para faces triangulares, A = 3V − 6 = 24 e F = 2V − 4 = 16.

7-A: 4F = 2A dá A = 16; Euler dá V = 10.

8-D: na família trivalente, A = 3F − 6 = 15 e V = 2F − 4 = 10.

9-B: o número de faces com quantidade ímpar de lados precisa ser par.

10-C: a combinação de incidências com Euler elimina os hexágonos e fornece p = 12.

11-D: Δ = 1; logo V = 12, A = 30 e F = 20, contagens do icosaedro.

12-A: 7 − 12 + 7 = 2 é compatível, mas a equação não prova existência ou unicidade.

13-C: t + q = 5 e 3t + 2q = 12 resultam em t = 2 e q = 3.

14-B: χ = 2 − 2g; com g = 1, χ = 0.

Resumo final

  • Para uma superfície poliédrica fechada, conexa e sem furos, V − A + F = 2.
  • Nas faces, Σkfk = 2A; nos vértices, Σjvj = 2A.
  • As contagens de faces de lados ímpares e de vértices de grau ímpar são pares.
  • Valem 3F ≤ 2A, 3V ≤ 2A, A ≤ 3V − 6 e A ≤ 3F − 6.
  • Faces triangulares, quadrangulares e vértices trivalentes geram fórmulas próprias.
  • Para superfícies orientáveis de gênero g, χ = 2 − 2g.
  • Euler testa compatibilidade; incidências e construção decidem mais sobre a existência.